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Ciclo Goldberg Burmester

A volta genial de Pedro Burmester às Variações Goldberg acontece como o de um sábio preparado para regressar a casa. A magnífica obra de Bach encontra agora o pianista numa interpretação que só pode fazer quem maturou e já atravessa o monumento musical em pura intuição.

 

Se alguma coisa imediatamente nos chamava atenção no gesto de Burmester para com esta obra era a abertura dos tempos, uma permissão que levava o intérprete a instalar climas verdadeiramente distintos na partitura que, sendo uma, é necessariamente um objecto múltiplo, convocando canones díspares e estados de espírito até contrastantes. Pois, avançando em relação à gravação dos anos de 1990, o gesto de Burmester é ainda menos rígido, diria que fluído, num ímpeto liberto que apenas os que sabem podem dominar sem se perderem. O espanto da primeira gravação redobra agora. E julgo que o ponto fundamental está na intuição, o modo como a obra se transforma num corpo que apenas os melhores podem domesticar. Neste sentido, estas Variações vêm às mãos de Burmester como um animal de carinho, amante, e escutam-se com a mesma paixão com que se toca alguém. Não é por acaso que em inúmeras passagens, nas progressões que Bach propõe, tenho a impressão de sentir a Burmester a mesma falha cardíaca dos enamorados, aquele instante em que não se respira, o coração que morre por um segundo para ressuscitar em esplendor logo a seguir. Como a nascer tudo de novo.

 

Há algo de mais limpo que, ainda assim, permite maior identidade. Esta é uma versão pessoalíssima. E se o mito conta que a obra valia para cuidar dos sonos do embaixador da Rússia, é verdade que a mim me comove como pode suscitar certa alegria contida e como, a dada altura, mais do que deitar o embaixador me dá a sensação de haver uma despedida. A Variação XXV, talvez a minha favorita de sempre, o Adagio, é mais morredoira e suscita a mais brilhante interioridade. Burmester oferece uma dolência, uma solenidade que se torna quase matéria parando nossos corpos. Pareceu-me que tudo era mais e mais longe, como se até entre o pianista e o piano houvesse uma lonjura, um afastamento que os obrigasse a ir embora um do outro, a tocarem-se à distância, pela memória ou pela saudade. Não há senão a magia para explicar tal coisa. Quando em menino entendi que Bach variava o baixo harmónico, a harmonia, ao invés da melodia, pensei que escolheu lidar com as costas da música. Algo que existe na estrutura mais discreta onde o edifício sempre mais encantatório da melodia se vai erguer. A revolucionária, e profundamente didática, proposta do maravilhoso mestre desafia nossa atenção, primeiro porque nos priva daquela espécie de açúcar que existe na melodia do tema. Não voltamos ao que mais nos delicia na aria, a sarabanda tão perfeita de onde parte. Depois, porque nos obriga a encontrar a beleza na trilha mais amarga. Extrai a obra do lado que seria menos fértil, de verdade como quem procura amar e ser amado por uma pedra. Pedro Burmester tem essa capacidade inteira, a de criar a condição cardíaca numa pedra.

 

Este disco é o encontro de perfeitos. Bach e Burmester. Os séculos desaparecem para que os dois se unam como partes de uma mesma inteligência. Uma que arrisca tudo, porque o que existia era pouco. Era preciso existir muito mais.

 

Valter Hugo Mãe



Data e locais 

 

11/04/2025 – Igreja Matriz (Loures) – 21h

 

24 e 25/05/2025 – Casa de Mateus (Capela), Vila Real

        24/05: conversa pré-concerto, (18h) e concerto (19h)

        25/05: concerto, 19h

 

28/06/2025 – Mosteiro de Alcobaça, 21h30

 

18/10/2025 – Fundação Casa de Bragança, Paço de Vila Viçosa, 18h

 

30/01/2026 –  Pequeno Auditório CCB, Lisboa, 20h


Ficha técnica

Pedro Burmester, piano

Valter Hugo Mãe, texto

Hugo Romano Guimarães, engenheiro de som

Travassos, design gráfico CD

Joana Gonçalves, design gráfico divulgação

Daniela Pinto, assessoria de imprensa

Tatiana Vargas, produção

Vanessa Pires, direção editorial